dia 3
no início reflexão pq da ausência de um manual escrito
teatro se escreve a cada dia em cada novo projeto
c cada novo agrupamento humano q quer fazer
e isso é claro pra mim
principalmente agora q trabalho c a UNIVERSIDADE LIVRE DE TEATRO VILA VELHA
o CURSO LIVRE DE TEATRO DA ETUFBA
preparo a encenação de ESPELHO PARA CEGOS
e faço esta oficina em s tomé
cada um um teatro
cada um um processo
a mesma base
mas como fixar um cânone
como estruturar um método
se n reescrevendo a cada dia o método
se n transgredindo e desobedecendo o planejado
passamos quase duas horas organizando os trinta toques e sons
em dois “conjuntos” sonoros de 15 toques cada
em dois objetos musicais
os ritmos se desencontravam
começavam casando um toque c outro
outro toque era acrescentado e se encaixava e iam se encaixando e de repente tudo começava a atravessar e recomeçar e encaixar e desencaixar
conseguimos montar os dois poliritmos com a ajuda de alguns facilitadores entre eles uns já tem estrada nos sons e instrumentos
depois retomar os personagens
uma longa caminhada
o início é sempre caminhar
um caminho q vai do primeiro dia até sempre
respirar
atenção
consciência da respiração
mudar
lembrar
voltar à respiração cotidiana
retomar a respiração imaginada e construída
a memória e o poder de reconstruir qdo quiser a partir de nenhum estímulo outro q n a vontade de mudar de assumir um outro estado provocado pela memória física da respiração
do ritmo e da pulsação
por fim os personagens retornam
e aceleram a respiração e o ritmo do andar
o andamento
em busca de alguma coisa q se quer muito
e por fim se chega ao lugar onde estaria o q se quer
onde aconteceria o necessário
e n sucede
n se encontra o buscado
relatar o q se buscou
e o exercício era relatar c sons
os sons construídos até então
o som de cada um como uma digital como a identidade a fala
usar os sons produzidos como linguagem
depois substituir a linguagem dos sons por palavras
o primeiro a relatar n encontrou mais uma festa
o segundo embarcou na festa q era de crianças e q tinha q acabar cedo
e tinha bebida alcoólica
levada por mães
e as crianças sumiram
e n tenho nada a ver c isso
e um longo discurso cênico sobre a isenção de responsabilidade da sociedade em relação aos problemas coletivos
vou resolver o meu
o outro resolva o seu
na roda final a cobrança de concentração
de q se escute a proposição e se execute o proposto
teve gente q fez
teve gente q
teve gente
e o debate sobre a diversidade dos participantes
mtos c experiência estrada formação
outros iniciando
excluir ou incluir
ajudar o outro a ser tb
ou ser e ir?

17/07/2013

foto: Eduardo Pinto

foto: Eduardo Pinto

dia 4
os personagens saem dos ritmos de cada um
surgem “como se estivesse vendo meus vizinhos”
os vizinhos q vão servir pra falar coisas
quem são eles?
surgem como dançarinas jogadores atletas policiais
trabalhadores pequenos proprietários c as terras invadidas
o q dizer c eles?
os personagens são como instrumentos q os atores devem saber tocar
e produzir a música q quiserem
ouvir os outros personagens
produzir uma música coletiva
q diga coisas
parte-se de mtos lugares
nós partimos da respiração q começa com caminhar
os participantes trouxeram tambores de seus grupos
lindos cheios de histórias
hj os ritmos são produzidos por tambores
q conduzem as ações
meio elenco toca meio elenco improvisa
apresentam os personagens e partem para uma jam session
os tambores guiam as ações
cada tocador com seu ritmo conduz um personagem do outro ator
há uma inversão
agora é meu ritmo q conduz seu personagem
faço c q entrem em cena intensifico as situações aumentando o volume ou andamento
tiro o seu personagem de cena parando de tocar
no intervalo outra explosão
tambores e danças
por fim
falar
dar nomes aos personagens e organizar sua memória
o q aconteceu?
em roda cada personagem se apresenta e diz o q faz
em roda são feitas perguntas para q se possa conhecer melhor cada um deles
as improvisações continuam como fala
cada personagem interfere na história do outro
afirmando coisas atos q mtas vezes o personagem arguido tenta negar
e mtas vezes o interlocutor diz tenho provas
e as provas são aceitas
mesmo se n expostas
é o princípio do jogo teatral
o outro nos conduz tb
as perguntas q fica é
q perguntas n foram feitas?
quem é seu personagem e o q vc vai fazer dele?
sobre isso vamos trabalhar segunda feira

18/07/13

foto: Eduardo Pinto

foto: Eduardo Pinto

dia 5
hj n tem encontro na oficina
tem abertura do festival gravana
gravana é a estação seca q dura dois meses depois das chuvas
e corresponde a julho/agosto
é um festival de cultura q envolve os fazeres das ilhas
quatro participantes da oficina se apresentam num grupo de dança tradicional
por isso discutimos ontem como seria
houve consenso em suspendermos a oficina
abertura oficial c o ministro da educação cultura e formação
o diretor de cultura o de turismo e outra coisa q esqueci
o diretor da cst telefônica q tem o monopólio dos celulares e internet
e q cobra um absurdo pelo serviço
mas q está patrocinando o evento
com muitas discussões sobre isso
principalmente por causa da assinatura da cst
no banner do festival
coisa q no brasil nem se questiona mais
nem se percebe
nem se vê
mas há uma disputa acirrada entre criadores de material gráfico
produtores e agentes do patrocinador
tb na mesa o presidente da cenalusófona
falas música
qdo vai começar a dança falta luz
esperamos
falta gasóleo [disel] no gerador
volta a luz
dançam um pouco visivelmente constrangidos
os atores q trabalham conosco na oficina
falta luz
há já gasóleo liga-se o gerador
fim da abertura oficial
perguntas
pra quem foi aquela abertura?
q público se espera para o festival?
quais são os critérios de seleção das apresentações?
temos discutido mto isso de público e políticas culturais.
o fato é q hj n temos encontro para a oficina
mas este encontro aqui c a cultura sãotomense e c a política do setor no país
valeram como um aprendizado
como colocar isso no palco
no experimento q faremos?
logo ao sair do arquivo histórico nacional onde o festival foi aberto
deparamos com um outro festival de rua de rap hip hop onde jovens de atitude ao som de djs dançam e fazem rimas
repistas dão seu recado put your hands up put your hands up
no duplo sentido da frase estadounidense mas universal
mostram a indignação em relação ao mundo e nos manda colocar as mãos ao ar
como dizíamos qdo eu era criança e brincava de polícia e ladrão
quem são os ladrões?

19/07/2013

 

Originalmente publicado aqui!

Márcio Meirelles, que dirigiu a Oficina de Interpretação de São Tomé, manteve ao longo da formação um diário de Bordo no blog do Teatro Vila Velha, do qual é director artístico.

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