foto: Eduardo Pinto

foto: Eduardo Pinto

dia 6
mudamos de espaço
de manhã fomos eduardo pinto (produtor) e eu
ao liceu tentar local mais amplo pra nossos encontros
a sala da casa da cultura é mto pequena
falamos c o diretor
e conseguimos pq a cenalusófona já tinha mandado uma carta há uma semana ou mais solicitando
e todas essas formalidades epistolares parecem fazer parte dos ritos locais
são levadas muito a sério
n sei se para retardar ações ou se pela sacralização das instituições
para q elas tenham valor e sentido
de outra forma q valor tem uma instituição se vc pode resolver as coisas pessoalmente?
fomos então um pouco antes da hora do ensaio
para a casa da cultura a princípio para trabalhar lá mesmo
mas decidimos ir para o liceu
mesmo pq a chave da sala onde ensaiamos está na mão de alguém q n se acha
e hj tem um seminário sobre direitos de propriedade intelectual
organizada até onde pude entender por uma organização internacional
faz parte do festival gravana
e mtos ligados à cultura oficial estão envolvidos nele
no liceu
a sala ampla e empoeirada
foi arrumada
temos 24 atores hj
o número varia entre 24 e 31 a cada dia
mais para o fim do ensaio chegam mais 3 e participam como observadores
no início
depois do aquecimento em q caminhamos respiramos
reconstruímos personagens
fazemos uma grande roda e um ator vai até o centro e apresenta o seu
outro ator vai até lá e contracena c ele
o primeiro sai e chama outro q vem e contracena c o q ficou
assim vão aparecendo relações
basicamente contam trechos de coisas q viveram em outros exercícios
é a proposta
apresentam o personagem agora a partir n só da imaginação
mas tb de experiências q ele teve com outros personagens feitos pelos outros
depois escolho seis atores q contaram experiências
q podem gerar discursos e peço q escolham seu time
assim formamos 6 grupos de 4 atores
peço q improvisem uma cena coletivamente
e começamos a criar as 6 cenas c as quais trabalharemos
eles apresentam as cenas em cima de um pequeno palco q existe na sala
estar um palco foi um diferencial
pedi q
escrevam sobre o personagem
tragam canções q lembrem o personagem ou a cena
tragam textos q quueiram ler e tenha a ver c os personagens ou cenas
escrevam as cenas

22/07/2013

dia 7
mudo a configuração do espaço
crio um corredor com espectadores dos dois lados
e isso deve ser levado em conta
retomamos as cenas
cada grupo apresenta de novo o q fez
agora mais estruturado
menos improvisado
uma certa e primeira consolidação
ou edição do q fizeram no dia anterior
depois de apresentarem sentam e escutam as perguntas e questões
dos outros atores q devem
falar sobre o q viram e n sobre o q gostariam de ter visto
falar sobre o q foi feito e n sobre o q fariam
dizer as dúvidas q surgiram
fazer perguntas q tentem elucidar aspectos dúbios ou pouco claros da cena e das relações entre os personagens
falar sobre as relações e objetivos dos personagens q lhe sugerem as ações apresentadas
fazer uma crítica n de valor mas de pertinência do apresentado no sentido de o q vi foi isso e me escaparam mtas coisas pq…….
apresentar um espelho para q o grupo q apresentou possa ver o q foi feito através dos olhos dos outros
o grupo q apresentou n fala nada
escuta e vai procurar responder reformulando a cena
ou clareando a narrativa das ações
o trabalho acabou bem tarde e n pudemos fazer a roda final
poucos trouxeram o q pedi ontem
textos canções cenas escritas

23/07/2013

dia 8
[esse foi um grande dia]
começamos com o aquecimento
cada um canta a canção q trouxe
dividimos os grupos para trabalharem melhor as cenas
trabalho eu próprio cada grupo
tento introduzir as canções
sentimos dificuldade paramos fazemos só as cenas
e vou uma a uma trabalhando
noções de espaço cênico de distância entre os personagens
de olhar de visão de pontos de vista de sonoridades
discutimos conteúdo e forma
sugiro e ouço sugestões a partir do q foi dito ontem
e do q pensamos sobre o q foi dito e o q fizemos
as cenas vão crescendo tomando forma
problema c ausências e atrasos
novos atores introduzem seus personagens em grupos
onde faltaram personagens
esbarramos numa cena q trata da questão do uso de drogas
n é um tema local ainda
n se sabe mto bem ou se confunde a natureza e efeito de cada uma
cheiram liamba fumam droga
maconha deixa as personagens completamente fora de si
sem nenhum controle sem reconhecer os outros
e por fim um professor e uma estranha aparecem e numa recuperação mágica “salvam” os 2 drogados
levam-nos para o hospital para a “cura”
discutimos sobre isso sobre as drogas
e decidimos abandonar o tema
caro às ongs mas alheio ainda ao cotidiano local
q valeria a pena discutir se tivéssemos tempo para desenvolver uma pesquisa e um ponto de vista sobre o assunto
se fôssemos testemunhas deste fato e pudéssemos apresenta-lo para q a platéia tomasse decisões a respeito
o grupo sente-se frustrado
mas vai recomeçar e refazer a cena
pergunto o q este teatro q estamos fazendo tem a ver c o q eles fazem normalmente aqui
quais as diferenças e como podem usar as ferramentas q estamos experimentando ou criando para seu trabalho individual
apesar de às vezes trabalharem a partir de textos na maioria das vezes trabalham a partir de improvisações
alguém traz um guião e faz a escala de atores/personagens
eles improvisam e estruturam a peça
nunca tinham trabalhado a partir do personagem e de uma criação de roteiro coletivo
n costumam trabalhar c ritmos e canções locais
barros sinaliza a necessidade de compromisso de estudo de pesquisa q poucos trouxeram os textos ou fizeram os trabalhos propostos
q gostam muito de falar e trabalham pouco pra mudar q se querem ser profissionais precisam ter compromisso
q muitos faltam chegam atrasados e atrapalham o andamento c isso
q teatro n é fácil precisa de disciplina e dedicação q os personagens precisam aparecer
q precisam saber sobre o q estão falando qdo falam coisas e a cena da droga foi o exemplo
agradeceram a barros pela fala
falo: meu filho mais velho é biólogo trabalha c corais e mergulha
qdo soube q eu vinha pra s. tomé ficou mto animado pq gostaria de vir e mergulhar aqui
aqui existe uma riqueza e diversidade mto grandes de vida marinha e ele gostaria de conhecer
daí ele me escreveu um imeio dizendo q eu devia mergulhar pra conhecer o seu universo e assim entende-lo um pouco mais
isso foi uma indicação
daí nos inscrevemos num mergulho e ontem fomos fazer o primeiro treinamento na piscina
fomos orientados sobre todos os procedimentos e advertidos de todas as dificuldades e perigos
nos ensinaram todos os sinais necessários para o primeiro mergulho
sinais de comunicação c significados específicos p os mergulhadores
ensaiamos o mergulho várias vezes
ensaiamos algumas possibilidades de acidente com seus perigos as alternativas de solução
estávamos aptos a estrear no mar
em pouca profundidade mas no mar
hj fomos ao ilhéu das cabras e ancoramos perto de um navio naufragado
colocamos roupas e equipamento
o figurino próprio
e mergulhamos
desci segurando a corda da âncora como todos os outros
o ouvido doia um pouco na descida mas fiz o q ensaiei e resolveu
enqto alguns já nadavam c seu instrutor para mais longe da âncora da zona de segurança e mais para perto do navio
eu comecei a achar q n ia dar certo q eu ia entrar em pânico q n ia saber coordenar tudo o q tínhamos ensaiado
subi e desci 3 vezes
o instrutor perguntava através de sinais se estava tudo bem eu dizia q sim mas n estava
da última vez q desci e já ia desistir pensei
de alguma forma estou aqui representando meu filho
mergulho por ele q n está aqui para mergulhar e para ele
para entender melhor seu universo
se eu desistir vou falhar c ele e vou perder a experiência de ver a diversidade de vida q existe aqui em baixo
vou perder a aventura
percebi q respirava corretamente e q tudo estava como tinha sido ensaiado
era ir e fui
vivi a aventura até o fim
vi os peixes corais e pedras vi q o navio tinha se transformado num monstro marinho macio ao toque
n mais o toque frio do metal nos dedos era como um animal gelatinoso q alimenta outras vidas em simbiose
vi o universo que fascina e alimenta meu filho e o representei num mergulho q sua ausência geográfica n permitia
assim é o teatro uma aventura
temos equipamentos/ferramentas e procedimentos q vamos construindo nos ensaios
qdo estamos aptos mergulhamos no palco e representamos o público q n está alí mas espera q o representemos
q vivamos situações q n estão no nosso cotidiano mas q são parte da experiência humana neste universo
as vezes desconhecido
o pânico de entrar no palco e fazer o q ensaiamos pode ser vencido se fizermos exatamente o q ensaiamos
e estivermos preparados pra solucionar problemas e acidentes q por acaso venham a acontecer
daí emergimos outros novos renovados mais ricos possuidores de uma nova vida e experiência
e teremos feito nosso papel – representado e entendido melhor o outro q ao se ver em nós reconhece
o nosso esforço e a sua própria experiência e pode lidar c ela fora de si e corrigir caminhos
e mudar a rota e ser melhor

24/07/2013

Originalmente publicado aqui!

Márcio Meirelles, que dirigiu a Oficina de Interpretação de São Tomé, manteve ao longo da formação um diário de Bordo no blog do Teatro Vila Velha, do qual é director artístico.

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