foto: Eduardo Pinto

foto: Eduardo Pinto

Dia 9
arrumamos as cenas
o grupo q fez a cena das drogas vai propor uma nova
atores q n vieram no primeiro dia
em q as cenas foram criadas ou seja n participaram do processo completo
onde cada um primeiro apresentou seu personagem
fez o diálogo c um outro
e depois foi escolhido para o “time” q faria a cena
formariam um grupo novo fruto do acaso do atraso e da ausência
resolvo propor q se juntem na cena da droga e façam a nova cena juntos
assim como agreguei um novo ator atrasado a outro grupo
então temos 4 cenas de 4 atores uma de 5 e um grupo com 7

o grupo de 7 propõe uma cena sobre gravidez na adolescência
e problemas familiares entre pai autoritário
e mãe responsável única pela educação dos filhos
e um filho q quer ser repista
tem ainda um professor responsável pela moral
um lutador q engravida a menina e n assume
e um repista amigo do filho q combate o sistema
mas depois se rende ao rico pai do amigo q propõe à dupla
a gravação de um cd e apresentação num show

no grupo de 5 atores temos uma cena
onde um comerciante pouco escrupuloso
joga cartas c um amigo pescador e
sabendo das dificuldades financeiras deste
oferece um empréstimo no intuito de tomar seu barco e seu trabalho
enquanto duas senhoras discutem seus problemas
um pássaro q n deixa uma delas dormir
e uma questão de divisão e invasão de terras n deixa a outra
nisto chega uma mulher ferida no braço
as outras duas pedem ajuda ao pescador q salva a ferida
o comerciante volta p cobrar a dívida

· uma mulher tem terras q estão sendo invadidas
pede ajuda a amigas para encontrar alguém pra trabalhar como guarda
e vigiar a roça durante a noite
contrata um senhor indicado por uma delas
mas este tem medo de escuro e da noite
e se esconde
qdo ela chega vê q levaram tudo
demite o novo empregado e cansada de tudo resolve ser dançarina

· um trabalhador rural planta e vê depois sua colheita roubada
enqto sua mulher tenta educar sua filha
q quer ser dançarina de kuduro e seduz um polícia pedófilo
o pai chega e diz q estão sem colheita e sem dinheiro
a mulher tenta punir o polícia q n ajuda a resolver o problema do roubo
pq é polícia de cidade

· uma mulher sabe q seu marido tem uma namorada
discutem e ele diz q tem cinco mulheres pq é homem e pode
ela bate nele como costuma fazer
o filho tenta apartar a briga e chama o vizinho
um militar aposentado q tb tenta
tenta colocar os dois pra marchar
o filho q vai participar de um concurso de dança
bota todos a dançar

· uma senhora perdeu o filho e está desesperada
cobiçada por dois senhores q n se importam c o problema dela
ela encontra um atleta q diz ter visto o filho indo pro mar
c um pescador
ela desmaia e cuidam dela até ela voltar a si e sair em busca do filho
os 3 homens discutem a incompetência deles em conquista-la

são situações ingênuas às vezes absurdas costuradas
c pedaços de personagens e relações construídas ao caminhar
imaginar coisas produzir ritmos relações c olhares
situações criadas c diálogos mudos
um acúmulo de elementos deram nestas cenas
q representam de alguma forma um momento daquele coletivo humano
pq surgiram essas cenas? esses assuntos?
o q no momento da história deste lugar fez esses atores

se voltarem para esses temas
este o segredo – o q temos p falar o q nos faz falar pq e p quem falar?
discutimos isso de várias formas
vamos conversando e reformulando cada cena
proponho ao grupo da mãe desesperada pela perda do filho
q o atleta sugira q ele foi enfeitiçado
ela se dá conta de q há bruxaria envolvida no desaparecimento
e cai tb em transe
há uma cerimônia de djambi e ela “montada” tem a revelação
de onde ele está e sai a procura no final
esta sugestão veio de uma conversa c barros
ele me disse q nos primeiros dias antes da minha chegada
provocou o relato de casos de bruxaria
elemento presente no espetáculo as orações de mansata
produto final do projeto q ele vai dirigir em coimbra
c atores de 5 países lusófonos portugal brasil angola guiné bissau e s tomé
todos trabalham suas cenas e reapresentam
há sensíveis mudanças em cada uma delas
a tarefa continua a ser pensar refletir propor
o q falamos qdo estamos representando esses personagens
q são como nossos vizinhos?
o q nos dizem nossos vizinhos e q vamos dizer p eles?
bjs e obrigado

25/07/2013

dia 10
este foi um dia especial
criada no lugar da cena q n deu certo sobre as drogas
a cena da adolescente grávida precisa estofo
peço a cada grupo q vá retrabalhar suas cenas
incluindo canções
pensando em ritmos
incorporando pensamentos e reflexões feitas em grupo ou a sós
fico com o grupo da gravidez
me dou conta q um dos problemas desse grupo foi a inconstância
dos seus participantes no trabalho
com várias faltas e mtos atrasos
mas trabalhamos
me dou conta tb q unicefs e ongs
q usam o teatro como ferramenta pedagógica
imprimiram aqui como no novo teatro amador feito nos subúrbios e comunidades brasileiras
um teor didático-social-prop
sem a grandeza dos dramaturgos q repensaram a estética do teatro no século XX
a partir da necessidade de comunicar às massas idéias políticas e revolucionárias
nem a grandeza de um anchieta ao incorporar as estruturas das tradições e ritos indígenas no seu teatro catequético colonizador
não há uma preocupação estética maior nesse “teatro inclusivo/didático”
a preocupação é moral e comportamental
há a ignorância qto a certeza de q só uma experiência estética profunda
é transformadora
há uma tentativa de passar ideias e preceitos e condutas somente pelas palavras
colocadas em roteiros pobres e ingênuos
isso se reflete nas cenas propostas
nas resoluções mágicas para problemas mto complexos
como o prazer q provém das drogas e suas consequências
como o prazer advindo do desejo sexual e suas consequências
como refrear o delírio e o orgasmo c palavras apaziguadoras?
é preciso assumir q os atos humanos têm consequências
todo e qualquer
mas n dizer ao adolescente
explodindo de tesão e de ânsia de experiências radicais
q refreie tudo evite ou tome precauções?
como se precaver contra o desejo?
as estratégias serão outras para evitar um caminho sem volta
e devemos evitar os caminhos sem volta
ou apenas saber q eles existem e optar por seguir ou parar?
Trabalhamos uma meia hora sobre a cena da família envolvida
c a gravidez precoce
e n avança
percebo q os personagens são frágeis bidimensionais
e resolvo instalar o caos
chamo os outros grupos q trabalham sozinhos suas cenas
e acrescento a cada personagem uma relação c outro
filhos mães amantes primos amigos cúmplices aparecem
digo q eles são isso ou aquilo de alguém
q seu parente ou relativo está c um problema e ele precisa ajudar a resolver
e os mando para a sala de ensaio
o ruído aumenta
o caos se estabelece
os personagens interagem e se atropelam
novas relações e revelações surgem como coelhos numa horta
muito barulho por causas a ganhar
de repente a cena do djambi se refaz
mas o jovem lutador é q é montado
e começa a denunciar a verdade de cada personagem ali presente
e o ator é “montado” tb
sai da sala c outro ator o conduzindo
começa a andar pelo campo grande pátio do liceu
vou junto tento conversar ele começa a pedir q n o levem q ele quer ficar ali
me dizem “é assim às vezes a gente tem a memória leve
e o djambi toma conta é preciso ter cuidado”
ele grita avança outros chegam
conduzem-no de volta à sala
ele pede para todos saírem ninguém sai
alguns riem
uns duvidam outros vão ajudar executam procedimentos rituais
para tirar o espírito dele
ele pede q um outro ator se aproxime
“só quero meu amigo venha cá”
anda de mãos dadas c ele pela sala e pede
“vá lá fora traga 7 folhas de fruteira secas”
ordem executada folhas entregues “sete”
ajoelha-se esfrega as folhas na cabeça cai volta a si
“se fosse de verdade vc ia ficar a noite inteira servindo ele – traga vinho traga isso traga aquilo”
retomamos o ensaio
apresentam as novas cenas surgidas
arruma-se o caos
até onde o mergulho leva um ator para dentro do teatro?

26/07/2013

Originalmente publicado aqui!

Márcio Meirelles, que dirigiu a Oficina de Interpretação de São Tomé, manteve ao longo da formação um diário de Bordo no blog do Teatro Vila Velha, do qual é director artístico.

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