“As Orações de Mansata”, peça do guineense Abdulai Sila, estreia em Coimbra a 17 de outubro, com um elenco de atores de seis países lusófonos, sendo também exibida depois no Brasil, Guiné-Bissau e Angola.

Ensaios de "As Orações de Mansata" em São Tomé e Príncipe (foto: Sofia Lobo)

Ensaios de “As Orações de Mansata” em São Tomé e Príncipe (foto: Sofia Lobo)

A história da peça, trabalho final do 4.º Estágio Internacional de Atores Lusófonos, começou há “alguns anos” e espelha o trabalho “lento e paciente” que a Cena Lusófona, coprodutora da peça, tem desenvolvido, contou à agência Lusa o encenador Augusto Barros.

A peça, baseada na tragédia “Macbeth” do dramaturgo inglês William Shakespeare, surge de “um desafio” que Augusto Barros fez a Abdulai Sila, considerando que os romances do escritor guineense “tinham bastante teatralidade”. A dramaturgia acabou por ser editada em 2007, sendo a primeira peça de teatro da Guiné-Bissau publicada.

“É um texto de leitura universal, que espelha a realidade africana, a instabilidade política e a corrupção esmagadora e chocante”, explicou o encenador.

O estágio, que culmina com a digressão intercontinental entre novembro de 2013 e maio de 2014, estreando a peça no Teatro da Cerca de São Bernardo, começou com ações de formação em Angola, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe, destinadas às comunidades teatrais desses países.

Das três ações de formação, foram selecionados três atores angolanos, dois da Guiné-Bissau e dois de São Tomé e Príncipe, juntando-se ao elenco de três portugueses e um moçambicano, das companhias da Escola da Noite, de Coimbra, e Theatro Circo, de Braga, e dois brasileiros do Bando de Teatro Olodum, de Salvador da Baía, no Brasil.

Os 13 atores encontraram-se pela primeira vez em agosto, na ilha de São Tomé.

Desse primeiro contacto, o ator Ridson Reis, da companhia de Salvador da Baía, recordou um episódio: “um membro da produção são-tomense fazia anos e então cantámos-lhe os parabéns de todos os lugares. Foi uma riqueza de parabéns”.

“Apesar de a língua ser o português, há diferentes sentidos e jeitos de interpretar as coisas”, explicou Ridson, opinião partilhada por Augusto Barros, que disse à agência Lusa que “criar uma linguagem comum a partir de culturas muito diferentes” tornou-se “um grande desafio” no decorrer dos ensaios.

O trabalho também se desenvolve em torno da Língua, tentando-se “encontrar uma linguagem comum a partir de culturas muito diferentes”, “sem se perder sotaques e musicalidades”, afirmou Augusto Barros.

“É uma salada russa, cada um com o seu sotaque”, adiantou Marlene dos Santos, da companhia angolana Horizonte Nzinga Mbande.

Jorge Biague, ator da Guiné-Bissau, sente-se “motivado” por poder representar a primeira peça guineense publicada, enaltecendo a “troca fantástica de culturas que tem acontecido”.

O início dos ensaios é o espaço para isso: Jorge Biague ensinou uma dança da Guiné, Ridson Reis introduziu música, Marlene dos Santos apresentou um canto em quimbundo.

“Na peça, vão surgir reflexos da fusão de expressões culturais, das suas mutações, e daquilo que os atores nos dão da sua cultura”, afirmou Augusto Barros.

Miguel Magalhães, ator da Escola da Noite, evidencia a “multiplicidade de culturas”, dizendo que, “em 16 anos de ator profissional, este é o trabalho mais intensivo” que já teve.

“Isto é uma celebração da lusofonia”, frisou o ator são-tomense Amador Fernandes, afirmando que os atores são “os embaixadores dos seus países, das suas culturas”.

JYGA // MLL

Lusa/Fim

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