foto de ensaio de Augusto Baptista

foto de ensaio de Augusto Baptista

Abdulai Sila aparece referenciado como o primeiro autor de uma peça de teatro originária da Guiné Bissau. Autor de uma trilogia de ficção, esta é a sua primeira peça.

Os mais antigos atores portugueses conhecidos por nome são do seculo XII, Bonamis e Acompaniado, da corte de D. Sancho I, mas pela mão de Sá de Miranda fica Gil Vicente reconhecido como o pai do teatro português. Se essa designação não é historicamente muito precisa é um facto que a obra de Gil Vicente marca o início do teatro literário em Portugal. Se Mena Abrantes recebe esse título para o teatro angolano, a Abdulai Sila cabe esse mérito de iniciar a história do teatro escrito na Guiné. Esta peça é património literário de um país, de uma comunidade linguística mais vasta e entronca na vasta história do teatro.

Tomando o tema da ambição desmedida sugestionada por supostas profecias, expondo a venalidade dos homens que ocupam o poder como se fosse uma residência permanente, Sila transporta para o doloroso contexto africano contemporâneo a tragédia do poder que Shakespeare apresentou numa remota Escócia habitada por seres sobrenaturais que poem em destaque o lado mais obscuro da obsessão pelo poder. Para Sila, o contacto corruptor do poder não se situa num maniqueísta lá, do outro lado da fronteira, noutro país, para ser um muito evidente aqui e agora, com ramificações no tecido social e no contexto internacional.  

Esta é uma peça de teatro, mas por este meio constitui uma clara denuncia dos jogos de poder, na sua versão mais crua. A utilização da linguagem para mistificar ostensivamente as consequências da corrupção é instituída na criação de ministérios/ conselheiros de mukur-mukur (secretismo), de kibir-kabar (anarquia), de nhengher-nhengher (conspiração) bagar-bagar (caos), yukur-yakar (cilada); Meker-meker (intriga) e Tchumul- tchumul (desordem) são encarregados de promover, não resolver esses problemas numa espiral de ataques a chefes corruptos que só são atacados por outros igualmente venais que esperam na sombra a sua oportunidade.

Shakespeare quando queria fazer uma crítica aberta aos mecanismos do poder e corrupção encontrava um correlativo estranho, distante no tempo e no espaço, ou a intrigante e sempre perigosa Escócia ou o mundo da antiguidade. Sila tem a coragem de nos apresentar este drama das sociedades e das culturas no tempo de hoje, que é esta sincrética mistura de tempos, o místico o sobrenatural e o tecnológico.

E por mão da Cena Lusófona está aqui lançado como novo um sonho de criar uma voz que com as diferenças de costumes e de tradições não perde o encanto de criar um mundo irmão a que Abdulai Sila empresta a sua voz, com o desígnio de que nós, os herdeiros de uma fala comum nos entendamos e respeitemos como irmãos celebrando esta infinita riqueza numa pequena sala para um vasto publico em português, nossa língua nosso traço de união.

Filomena Louro
Universidade do Minho

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