cenário do espectáculo "As Orações de Mansata" montado no palco do Nacional Cine-Teatro (foto: Eduardo Pinto)

cenário do espectáculo “As Orações de Mansata” montado no palco do Nacional Cine-Teatro (foto: Eduardo Pinto)

As duas apresentações de “As Orações de Mansata” previstas para 16 e 17 de Maio (ontem e hoje) no Nacional Cine-Teatro (Chá de Caxinde), em Luanda, foram canceladas por ordem da Ministra da Cultura de Angola, recebida na tarde de ontem.
A interdição é justificada por razões de segurança do Teatro, que alegadamente não reúne condições para a realização de actividades. O impedimento coloca em causa o cumprimento dos objectivos do projecto P-STAGE – IV Estágio Internacional de Actores e faz com que o público de Luanda fique privado de assistir ao espectáculo, cuja digressão internacional deveria terminar este fim-de-semana na capital angolana, depois de 31 sessões apresentadas em Portugal, Espanha e Guiné-Bissau, desde Outubro de 2013.
“As Orações de Mansata” é uma co-produção entre a Cena Lusófona, o Elinga Teatro (Angola), a Companhia de Teatro de Braga e A Escola da Noite (Portugal) e o Teatro Vila Velha (Salvador, Brasil). É o resultado mais visível do P-STAGE, um projecto de formação, criação e difusão teatral financiado pela União Europeia no âmbito do programa ACP Cultures+, que envolve ainda, como parceiros e associados, a AD – Acção para o Desenvolvimento e o CIT Bissau (Guiné-Bissau), o CIT São Tomé (São Tomé e Príncipe), o Centro Dramático Galego (Espanha) e o Theatro Circo e o Teatro da Cerca de São Bernardo (Portugal).
Em nome deste consórcio, a Cena Lusófona estranha a atitude da Ministra da Cultura pela forma e pelo momento em que foi tomada e recorda os momentos mais significativos da cronologia deste processo:

Novembro/12: Em reunião realizada em Luanda a nosso pedido, a Cena Lusófona e o Elinga Teatro apresentam o projecto P-STAGE à Ministra da Cultura e oferecem-lhe o livro com a peça de teatro que seria apresentada. A Ministra reconhece o interesse cultural do projecto e compromete-se a apoiá-lo, também financeiramente, com uma verba a definir. No mesmo mês tem lugar em Luanda a primeira actividade do projecto – uma oficina de interpretação que envolveu vinte actores angolanos, oriundos de 9 grupos de teatro, a partir da qual foram seleccionados os três actores do país que integram o elenco internacional do espectáculo. Ainda em Novembro, a Ministra participa numa conferência de imprensa de apresentação pública do projecto, realizada no Centro de Imprensa Aníbal de Melo, onde reitera o seu apoio ao projecto, ao lado de representantes da Cena Lusófona, do Elinga Teatro, da Embaixada de Portugal e da Delegação da União Europeia em Portugal.

Rosa Cruz e Silva, Ministra da Cultura de Angola, na sessão de apresentação pública do P-STAGE em Luanda (Novembro/2012)

Rosa Cruz e Silva, Ministra da Cultura de Angola, na sessão de apresentação pública do P-STAGE em Luanda (Novembro/2012)

Abril/14: A Cena Lusófona envia no dia 9 uma carta com o balanço das actividades já concretizadas e com o programa detalhado das iniciativas programadas para Luanda, entre 12 e 17 de Maio, incluindo as duas apresentações no Nacional Cine-Teatro. Na mesma carta é solicitada uma audiência com a Ministra, assim que a comitiva chegasse a Luanda, para acertar os pormenores das actividades a realizar. Não houve resposta a essa carta até hoje.

Maio/14: O Elinga envia formalmente um convite à Ministra para que assista à estreia do espectáculo no Teatro Nacional. Na manhã de dia 13 (terça-feira), a comitiva de 22 pessoas chega a Luanda e começa de imediato a trabalhosa montagem do espectáculo no palco do Nacional Cine-Teatro. A interdição é comunicada pela Ministra no dia 16, sexta-feira, a meio da tarde, a cerca de três horas do início do primeiro espectáculo, quando a montagem já está concluída. Transmitida a esta hora, a interdição não permite que seja encontrada qualquer solução alternativa.

É do conhecimento geral que, desde a última intervenção estrutural feita no Nacional Cine-Teatro, há alguns meses, o Teatro tem funcionado regularmente, acolhendo espectáculos de música, teatro e dança, cinema e outras iniciativas públicas, como as celebrações dos 40 anos do 25 de Abril. Estavam programadas e anunciadas publicamente outras actividades e espectáculos pelo menos até ao final de Junho.

Ao interditar o Teatro no momento em que o fez, e perante a reconhecida falta de salas de espectáculos na capital angolana, a Ministra impede-nos de encontrar uma solução alternativa e inviabiliza, na prática, a sua apresentação em Luanda. O público de Luanda fica sem conhecer o espectáculo; os três actores angolanos que integram o elenco internacional ficam sem poder mostrar o seu trabalho na sua terra; os objectivos do projecto P-STAGE ficam comprometidos.
Para além dos prejuízos financeiros que decorrem desta situação e dos compromissos internacionais que ficam por honrar, o grupo experiencia neste momento sentimentos de perplexidade, frustração e indignação pela forma como todo o processo foi conduzido e não pode deixar de questionar publicamente a Ministra da Cultura de Angola quanto ao seguinte:
– por que razão, tendo tido conhecimento antecipado do programa de actividades, a Ministra não comunicou antes os problemas de segurança do Teatro?

– perante os prejuízos que decorrem desta atitude o que pensa a Ministra da Cultura fazer?

Luanda, 17 de Maio de 2014

Cena Lusófona

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