A comitiva do projecto P-STAGE regressou a Portugal na passada segunda-feira sem conseguir apresentar em Luanda o espectáculo “As Orações de Mansata”. As duas sessões agendadas para 16 e 17 de Maio no Nacional Cine-Teatro foram interditadas por ordem da Ministra da Cultura, alegadamente devido a problemas de segurança do espaço. A proibição foi decretada a três horas do início do primeiro espectáculo e gerou muitas críticas entre a sociedade civil angolana, incluindo acusações de censura face à temática do texto de Abdulai Sila.

foto: Emílio Lukombo

foto: Emílio Lukombo

Na sequência das críticas de que foi alvo e do comunicado da Cena Lusófona, que manifestou estranheza pelo momento em que a interdição foi anunciada e alertou para os graves prejuízos artísticos, institucionais e financeiros decorrentes da atitude do Governo angolano, a Ministra recebeu os responsáveis pelo projecto no final da tarde de sábado, dia 17 de Maio. Nesse encontro, a governante defendeu que na base da interdição estava o “perigo iminente” de queda da cobertura do palco e afirmou desconhecer que o Nacional Cine-Teatro, propriedade do Estado angolano e tutelado pela Ministério da Cultura, se encontrava em pleno funcionamento desde o final de Março e com programação anunciada até pelo menos ao final de Junho.

Fazendo questão de refutar as acusações de censura que se multiplicaram nas redes sociais e na imprensa internacional, Rosa Cruz e Silva colocou então à disposição do grupo dois outros espaços na cidade de Luanda – o Cine Tropical e o Centro de Conferências de Belas – prontificando-se a suportar todos os custos com o aluguer do equipamento que fosse necessário e com a estadia da comitiva em Luanda por mais alguns dias, até à apresentação do espectáculo.

As condições oferecidas pelos espaços não permitiriam, no entanto, que os espectáculos pudessem ser realizados antes do dia 22 de Maio, quinta-feira. Compromissos inadiáveis de alguns dos profissionais que integram a equipa do P-STAGE obrigavam-nos a estar em Portugal antes dessa data, pelo que o grupo teve mesmo de regressar na data prevista, sem poder apresentar o seu trabalho na capital angolana.

As Orações de Mansata”, de Abdulai Sila, é o resultado mais visível do P-STAGE, um projecto de formação, criação e difusão teatral desenvolvido em parceria pela Cena Lusófona (Portugal), o Elinga Teatro (Angola) e a AD – Acção para o Desenvolvimento (Guiné-Bissau), no âmbito do programa ACP Cultures+, financiado pela União Europeia. São ainda associados do projecto o Teatro Vila Velha (Salvador, Brasil), o Centro de Intercâmbio Teatral de Bissau (Guiné-Bissau), o Centro de Intercâmbio Teatral de São Tomé (São Tomé e Príncipe), o Centro Dramático Galego (Espanha) e A Escola da Noite, a Companhia de Teatro de Braga e o Theatro Circo de Braga (Portugal). Com um elenco de 13 actores, oriundos de seis países de língua portuguesa – Angola, Brasil, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe –, o espectáculo é construído a partir da primeira peça de teatro editada na Guiné-Bissau. Inspirado em Macbeth, de Shakespeare, o texto oferece um retrato dos mecanismos de corrupção, luta pelo poder e violência que caracteriza vários regimes políticos em todo o mundo, incluindo, num passado recente, o país do seu autor.

Na semana imediatamente anterior aos cancelamentos em Luanda, contudo, o espectáculo tinha sido apresentado em Bissau, onde alcançou uma entusiástica recepção por parte do público. As sessões marcadas para Angola seriam o encerramento de uma digressão internacional que, desde a estreia em Coimbra, em Outubro de 2013, passou por várias outras localidades de Portugal e Espanha: Braga, Campo Benfeito, Bragança, Santiago de Compostela e Figueira da Foz.

A Cena Lusófona lamenta profundamente o sucedido, em particular o facto de não ter sido possível corresponder às expectativas do público angolano, que tinha já praticamente esgotado as duas sessões previstas para o Nacional Cine-Teatro.

Ao mesmo tempo que estuda com a Comissão Europeia e com o Secretariado dos Países ACP a melhor forma de minimizar os prejuízos decorrentes da situação, reitera, perante o Governo angolano, a sua disponibilidade para equacionar o regresso da comitiva a Luanda ao longo dos próximos meses, mediante uma justificação e um convite formais por parte das autoridades competentes, que foram prometidos pela Ministra da Cultura mas não foram ainda concretizados.

 

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