1. cena lusófona

A Cena Lusófona iniciou as suas actividades em 1995. Cerca de 40 pessoas – encenadores, actores, cenógrafos, técnicos, antropólogos e arquitectos – criaram e têm desenvolvido uma organização exclusivamente dedicada ao intercâmbio teatral entre os países de língua portuguesa. Tem a sua sede em Coimbra, Portugal.
Entre o trabalho realizado, destaca-se, entre outras actividades:

  • espectáculos internacionais co-produzidos por parceiros de dois ou mais países lusófonos;
  • um festival rotativo chamado “Estação”, que já teve lugar em Moçambique, Brasil, Cabo Verde, Portugal e São Tomé e Príncipe;
  • o inventário de espaços cénicos nos países africanos de língua portuguesa;
  • a criação de um Centro de Documentação e Informação (CDI), que recolhe e divulga informação acerca do teatro nos países lusófonos;
  • um conjunto de publicações, que inclui uma colecção de dramaturgia de língua portuguesa, uma revista especializada (setepalcos) e o jornal cenaberta (em papel e online);
  • diversas acções de formação nos vários domínios do fazer teatral (interpretação, dramaturgia, técnica de palco, documentação).

Os Estágios Internacionais de Actores (EIA) são uma parte deste conceito abrangente de intercâmbio e formação. A Cena Lusófona já organizou três edições, em 1997/98, 1998/2000 e em 2003. Juntando num mesmo processo de trabalho jovens actores dos diferentes países de língua portuguesa, os participantes beneficiam de uma excelente oportunidade de formação artística, que é simultaneamente um teste à capacidade de compreensão humana e artística entre pessoas de diferentes culturas. Os estágios oferecem uma oportunidade única de encontro entre jovens de diferentes latitudes e facilitam futuras ligações e projectos de parceria entre indivíduos e instituições dos diferentes países.
Os três estágios tiveram diferentes formas e duração, de acordo com os contextos em que foram organizados, bem como as parcerias estabelecidas em cada momento.

O primeiro EIA teve lugar em Coimbra e em Lisboa, ao longo de um período de 11 meses, em 1997/98. Envolveu 15 actores de oito países lusófonos: Angola (2), Brasil (2), Cabo Verde (2), Guiné-Bissau (2), Moçambique (2), Portugal (2), São Tomé e Príncipe (1) e Timor-Leste (2). O programa de formação foi dividido em três fases: as duas primeiras resultaram em dois espectáculos diferentes – “A fronteira” e “O beijo no asfalto”; a terceira resultou no espectáculo de rua “Olharapos”, integrado no programa da Expo’98, em Lisboa. Para além da formação dada pelos três encenadores envolvidos – Rogério de Carvalho (Angola), José Caldas (Brasil) e Cândido Ferreira (Portugal), os estagiários receberam formação nas áreas da dramaturgia, da cenografia, da coreografia e da construção e utilização de máscaras, entre outras.

O segundo estágio teve início em 1998, com uma abordagem diferente. Ao longo de dois anos, foram realizados seis workshops – Angola, Cabo Verde, Moçambique, Portugal, Guiné Bissau e Brasil (2) –, envolvendo mais de 120 jovens actores. Desses estágios foram seleccionados 14 actores – Angola (2), Brasil (2), Cabo Verde (1), Guiné-Bissau (1), Moçambique (1), Portugal (4) e São Tomé e Principe (1) – que se reuniram em Portugal para um estágio final de dois meses. Nesta fase, foi construído o espectáculo “Quem Come Quem”, com dramaturgia do investigador brasileiro Sebastião Milaré e direcção do encenador alemão Stephan Stroux. O espectáculo estreou em Coimbra em Julho de 2000 e foi apresentado em Braga e no Porto.

Em 2003, no âmbito do projecto “Coimbra, Capital Nacional da Cultura”, foi possível organizar o terceiro EIA, em co-produção com a companhia de teatro profissional A Escola da Noite, sediada nesta cidade. Desta vez, sete actores oriundos de cinco países lusófonos – Angola, Brasil (3), Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé and Principe – juntaram-se ao elenco de uma companhia de teatro para criarem o espectáculo “O Horácio”, de Heiner Müller, sob a direcção do encenador e professor de teatro francês Pierre Voltz. O espectáculo estreou em Coimbra e foi integrado no programa da VI edição do festival “Estação”, em Dezembro de 2003, o que permitiu que fosse visto e discutido pelos vários membros da comunidade artística lusófona presente em Coimbra nesses dias. Antes do fim do estágio, o espectáculo efectuou ainda mais duas apresentações na cidade de Aveiro, a convite do Teatro Aveirense.

Entre os testemunhos dos jovens actores que participaram nestes estágios, que confirmam o seu sucesso, destacam-se os seguintes:

“Espero que este esforço de juntar regularmente pessoas de diferentes culturas, onde cada um ensina e aprende, possa ter continuidade”, Amélia da Silva, Guiné-Bissau

“Falar deste estágio é falar de uma experiência marcante. Um trabalho corajoso de quem organiza e um presente para os artistas que viveram esse processo”, Andrea Pozzi, Brasil

“Sendo um grupo absolutamente sui generis, a fricção gerada pelas nossas diferenças culturais, sociais e ideológicas trouxe a própria ideia de conflito positivo, no sentido de aprender com a diferença, aprender olhando directo no humano”, João Ricardo, Brasil

“O Estágio foi um experiência muito forte e enriquecedora que me ajudou a descortinar incógnitas e a abrir portas deste mundo maravilhoso que é o Teatro. Que a Cena Lusófona tenha muitos anos de vida, para que outros jovens usufruam também deste espaço”, Carla Sequeira, Cabo Verde

Quase 10 anos depois, a Cena Lusófona pretende dar continuidade a este ciclo de estágios, recuperando o modelo adoptado no segundo EIA: workshops nos diferentes países e a posterior construção de um espectáculo com um elenco internacional, garantindo à partida a circulação deste espectáculo pelos vários países envolvidos.

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